quarta-feira, maio 23, 2012

672 - Pedras no Caminho

Posso ter defeitos, viver ansioso
e ficar irritado alguma vezes,
mas não esqueço de que a minha vida
é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si,
mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "Não".
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no Caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...

Fernando Pessoa

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sexta-feira, dezembro 30, 2011

625 - Antonio Lobo Antunes


Pastos na testa
Terço na mão
Uma botija
Chá de limão
Zaragatoas
Vinho com mel
Três aspirinas
Creme na pele
Dói-me a garganta
Chamo a mulher
Ai, Lurdes, Lurdes
Que vou morrer
Mede-me a febre
Olha-me a goela
Cala os miúdos
Fecha a janela
Não quero canja
Nem a salada
Ai Lurdes, Lurdes
Não vales nada
Se tu sonhasses
Como me sinto
Já vejo a morte
Nunca te minto
Já vejo o inferno
Chamas diabos
Anjos estranhos
Cornos e rabos
Tigres sem listas
Bodes de tranças
Choros de corujas
Risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes
Que foi aquilo
Não é a chuva
No meu postigo
Ai Lurdes, Lurdes
Fica comigo
Não é o vento
A cirandar
Nem são as vozes
Que vêm do mar
Não é o pingo
De uma torneira
Põe-me a santinha
À cabeceira
Compõe-me a colcha
Fala ao prior
Pousa o Jesus
No cobertor
Chama o doutor
Passa a chamada
Ai Lurdes, Lurdes
Nem dás por nada
Faz-me tisanas
E pão de ló
Não te levantes
Que fico só
Aqui sozinho
A apodrecer
Ai Lurdes, Lurdes
Que vou morrer

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quinta-feira, maio 05, 2011

561 - Maio, Leonor, Poesia (Para Anabela)

MAIO MADURO MAIO

Maio maduro Maio, quem te pintou
Quem te quebrou o encanto, nunca te amou

Raiava o sol já no Sul, Ti ri tu ri tu ri tu ru Ti ri tu ru tu ru
E uma falua vinha lá de Istambul

Sempre depois da sesta chamando as flores
Era o dia da festa Maio de amores
Era o dia de cantar, Ti ri tu ri tu ri tu ru Ti ri tu ru tu ru
E uma falua andava ao longe a varar

Maio com meu amigo quem dera já
Sempre no mês do trigo se cantará
Qu'importa a fúria do mar, Ti ri tu ri tu ri tu ru Ti ri tu ru tu ru
Que a voz não te esmoreça vamos lutar

Numa rua comprida El-rei pastor
Vende o soro da vida que mata a dor
Anda ver, Maio nasceu, Ti ri tu ri tu ri tu ru Ti ri tu ru tu ru
Que a voz não te esmoreça a turba rompeu


José Afonso

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Cantiga

Descalça vai para a fonte
Leonor, pela verdura;
vai formosa e não segura.

Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai formosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
cabelos de ouro o trançado,
fita de cor de encarnado…
tão linda que o mundo espanta!
chove nela graça tanta
que dá graça à formosura;
vai formosa, e não segura.


Luís de Camões


Imagens da Internet

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segunda-feira, abril 18, 2011

547 - QUE É O AMOR?

Além de Mim

Voltei-me...não te vi!
E, no entanto...ainda há pouco o olhar falava...os gestos antecipando a ausência.
Voltei-me...não te vi!
As portas fechadas...
As janelas desafiando a lucidez do olhar...
Apenas aquele ruído de partida - um som que se dilui na razão inversa da saudade!
O oposto da chegada, quando a pulsação é desenfreada e o olhar inquieto...
Depois...recompenso-me no verde dos teus olhos enquanto as horas se atropelam numa câmara lenta de bicos de pés...
...até que olho para trás...
...e sem saber porquê...sorrio ainda.


QUE É O AMOR?
O Livro da Blogoesfera
Editora Anjo Dourado


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quinta-feira, abril 14, 2011

543 - AS ROSAS


 As rosas

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas
Sophia de Mello Breyner Andresen - Cem Poemas de Sophia
Visão / Jl

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terça-feira, abril 12, 2011

541 - SOPHIA

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen - Cem Poemas de Sophia
Visão / JL

 

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sábado, março 26, 2011

524 - PORQUE HOJE É SÁBADO...

NÃO DIREI

Não direi maçãs rosadas
nem limões, nem laranjas.

Direi que me gela
o sangue nas mãos
e m`enoja viver neste tempo
e neste país

Não direi maçãs rosadas
nem limões, nem laranjas;
gritarei ainda mais alto
e lutarei pela nosa liberdade.

Carles-Jordi Guardiola
Nasceu em Manresa (Barcelona) em 1948.
Foi estudante na Universidade de Letras da Universidade
de Barcelona, onde participou nos movimentos sindicais estudantis.
Foi Prémio Nacional de Poesia Universitária em 1964.

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terça-feira, março 22, 2011

520 - DIA MUNDIAL DA ÁGUA

Fotos publicadas em PALAVRA PUXA PALAVRA







AS ILHAS
Navegámos para Oriente -
A longa costa
Era de um verde espesso e sonolento

Um verde imóvel sob nenhum vento
Até à branca praia cor de rosas
Tocada pelas águas transparentes

Então surgiram as ilhas luminosas
De um azul tão puro e tão violento
Que excedia o fulgor do firmamento
Navegado por garças milagrosas

E extinguiram-se em nós memória e tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen. Cem Poemas de Sophia, Ed. Visão/JL

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segunda-feira, março 21, 2011

519 - DIA MUNDIAL DA POESIA


D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

D. SEBASTIÃO

Sperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.

O ENCOBERTO

Que símbolo fecundo
Vem na aurora ansiosa?
Na Cruz morta do Mundo
A Vida, que é a Rosa.

Que símbolo divino
Traz o dia já visto?
Na Cruz, que é o Destino,
A Rosa, que é o Cristo.

Que símbolo final
Mostra o sol já desperto?
Na Cruz morta e fatal
A Rosa do Encoberto.

Fernando Pessoa - Mensagem
Edição Fernando Cabral Martins
Edição original Assírio & Alvim

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terça-feira, março 08, 2011

506 - DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Eis-me

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sózinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Sophia de Mello Breyner Andresen - Cem Poemas de Sophia - Ed. Visão/JL

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quarta-feira, março 02, 2011

POST NR. 500 - HOMENAGEM - Pablo Neruda




Pequenina.
Que hei-de contar-te, Pequenina, para que te divirtas? É noite, e estou alegre, sózinho na minha casa, que é como uma torre cheia de grades por onde miro a noite cheia de estrelas. Não me sinto cansado da viagem, apesar de ter sido tão acidentada. À meia noite esconderam-me debaixo de um catre, e aí estive cinco horas a gelar. Depois um carro de terceira. Nada de principesco. Mas, por fim cheguei. Vagueei toda a tarde por estas ruas que tanto tenho visto. Andei pelos arredores e trouxe grandes ramos de violetas que, de tão belas, deviam ser para ti. Que alegria ver este prado verde, e sentir-me eu, eu próprio livre de tanta tolice, ágil e só. Ah! Se aqui estivesses, fofinha. Se estivesses agora, ao pé deste braseiro que me aquece, se estivesses com os teus belos olhos tristes, com o teu silêncio que tanto amo, com a tua boca que precisa dos meus beijos. Vem, pequenina. Ou, pelo menos, pensa em mim.
Um, dois, três, cem beijos do teu
Pablo Neruda

PABLO NERUDA - CARTAS DE AMOR

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sexta-feira, janeiro 28, 2011

poema a galileo


Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre o modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Oficios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria...
Eu sei...Eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo, 
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição, 
se estivese tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas,
e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que estou a vê-las - 
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam, 
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.

Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso, estòicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas, 
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

poema a galileo - António Gedeão - edições ITAU


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quinta-feira, janeiro 27, 2011

MAR - para a minha filha


Do Livro da Primeira Classe da minha infância.

MAR

I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

Sophia de Mello Breyner Andresen - Cem Poemas de Sophia - Edição Visão/JL


Para a Sara, com o desejo de viagens possíveis. Por Terra, Ar e MAR.

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segunda-feira, janeiro 17, 2011

Ainda o T

T (tê)

T  de tantos  T de Triste  T de todos
T  de tudo  ou  de  nada
T  a  tecer  em  sua torre o
Tempo


Há  toiros a pastar nas margens do T
há um cristo que traz um T às costas
tábua minha onde talho o canto
meu talvez  minha taça: T  de  tágide.

E tudo é tema  teia  tentação
tudo é ponto d`in-
terrogação.  Tudo  é  tempo  a  tecer
em  sua  torre o
T 

Janeiro 1974


Letras - Manuel Alegre - Editora Centelha


T de TITO

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domingo, janeiro 16, 2011

Sophia


LIBERDADE

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Cem Poemas de Sophia
Edição Visão / JL

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sexta-feira, janeiro 14, 2011

Sophia

AQUI

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua

Aqui livre sou eu - eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não por aquilo que só atravessei,
Não p`lo meu rumor que só perdi,
Não p`los incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me enternizei.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Cem Poemas de Sophia
Edição Visão/JL

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quinta-feira, novembro 12, 2009

POETAS CATALÃES DE HOJE - I

SE CHEGAR A VELHO

Se chegar a velho,
deixarei crescer a barba à minha vontade.
Uma doença, talvez mortal, persistente,
será a minha amiga.
Um belo cancro - digo - na boca
talvez me cresça como uma gardénia,
por ter falado demais.
Ah ! então, então talvez até desfie o rosário
e tenha um lamentável desejo de falar de gladíolos...
dar conselhos definitivos carregados de experiência.
O mais provável é que caminhe curvo sob o peso
da lembrança, da lembrança dos meus amigos justiçados,
suicidados ou desaparecidos para além da fronteira,
quem sabe onde,
se chegar a velho...


Miguel Bauçà
Nasce em Felanitx (Maiorca) em 1940. Estuda na Faculdade de Letras da Universidade de Barcelona.

Obra poética: Una bella história (1962). O texto escolhido (si arrib a ser vell) foi extraído do único livro publicado

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terça-feira, agosto 25, 2009

Miscelânea

V (vê)


V de vulcão V de Vesúvio V de lava

V de livre e livro V de vaga

V de ver (V nunca visto) V tão vivo

V de vinho V de verde

verde vento


Manuel Alegre - Letras - Poesia Nosso Tempo


---


INSCRIÇÃO


Quando eu morrer voltarei para buscar

Os instantes que não vivi junto do mar



Sophia de Mello Breyner Andresen - Cem Poemas de Sophia - Visão JL


















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quarta-feira, agosto 19, 2009

Manuel Alegre / Manuel da Fonseca

De Portugal para Salvador da Baía

TROVA DO VENTO QUE PASSA
para Antonio Portugal


Pergunto ao vento que passa

notícias do meu país

e o vento cala a desgraça

o vento nada me diz.



Pergunto aos rios que levam

tanto sonho à flor das águas

e os rios não me sossegam

levam sonhos deixam mágoas.



Levam sonhos deixam mágoas

ai rios do meu país

minha pátria à flor das águas

para onde vais ? Ninguém diz.



Se o verde trevo desfolhas

pede notícias e diz

ao trevo de quatro folhas

que morro por meu país



Pergunto à gente que passa

por que vai de olhos no chão.

Silêncio - é tudo o que tem

quem vive na servidão.



Vi florir os verdes ramos

direitos e ao céu voltados.

E a quem gosta de ter amos

vi sempre os ombros curvados.



E o vento não me diz nada

ninguém diz nada de novo.

Vi minha pátria pregada

nos braços em cruz do povo.



Vi meu poema na margem

dos rios que vão pró mar

como quem ama a viagem

mas tem sempre que ficar.



Vi navios a partir

(Portugal à flor das águas)

vi minha trova florir

(verdes folhas verdes mágoas)



Há quem te queira ignorada

e fale pátria em teu nome

Eu vi-te crucificada

nos braços negros da fome.



E o vento não me diz nada

só o silêncio persiste

Vi minha pátria parada

à beira de um rio triste.



Ninguém diz nada de novo

se notícias vou pedindo

nas mãos vazias do povo

vi minha pátria florindo.



E a noite cresce por dentro

dos homens do meu país.

Peço notícias ao vento

e o vento nada me diz.



Mas há sempre uma candeia

dentro da própria desgraça

há sempre alguém que semeia

canções no vento que passa.



Mesmo na noite mais triste

em tempo de servidão

há sempre alguém que resiste

há sempre alguém que diz não.


Manuel Alegre - Praça da Canção
Publicações Dom Quixote



---

CORO DOS EMPREGADOS DA CÂMARA

É tão vazia a nossa vida,
é tão inútil a nossa vida
que a gente veste de escuro
como se andasse de luto.
Ao menos se alguém morresse
e esse alguém fosse um de nós
e esse um de nós fosse eu...

...O sol andando lá fora,
fazendo lume nos vidros,
chegando carros ao largo
com gente que vem de fora
(quem será que vem de fora?)
e a gente pràqui fechados
na penumbra das paredes,
curvados pràs secretárias
fazendo letra bonita.
Fazendo letra bonita
e o vento andando lá fora
rumorejando nas árvores,
levando nuvens pelo céu,
trazendo um grito da rua
(quem seria que gritou?)
e a gente pràqui fechados
na penumbra das paredes,
curvados pràs secretárias
fazendo letra bonita,
enchendo impressos, impressos,
livros, livros, folhas soltas,
carimbando, pondo selos,
bocejando, bocejando,
bocejando.

Manuel da Fonseca - Poemas Completos - Portugália Editora

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domingo, agosto 09, 2009

Pequenino por nascer... Para o Tito

ESPERANÇAS
Meu doce menino por nascer ainda,
No breve casulo,brinca em paz, descansa,
Que ao primeiro grito já entras na dança,
Apagam-se os ecos dessa vida linda.
.....
Foram milhões de anos a esperar a vinda
Para o lado de cá, nesta margem de esperança.
Mas mal se te acabe essa ténue bonança,
Vem a tempestade que nunca mais finda...
.....
São anos e anos de sustos, cansaços,
De ilusões perdidas, de outras por sonhar...
De tudo vais ter que suster nos teus braços.
......
Irás aprender que esta vida é um mar...
E seja de prata, seja de sargaços,
Vogarás feliz, se o souberes navegar!...
......
Ilídia Vale - O Rosto das Palavras
Edição da C.M. Vila Nova de Gaia

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