sexta-feira, dezembro 30, 2011

625 - Antonio Lobo Antunes


Pastos na testa
Terço na mão
Uma botija
Chá de limão
Zaragatoas
Vinho com mel
Três aspirinas
Creme na pele
Dói-me a garganta
Chamo a mulher
Ai, Lurdes, Lurdes
Que vou morrer
Mede-me a febre
Olha-me a goela
Cala os miúdos
Fecha a janela
Não quero canja
Nem a salada
Ai Lurdes, Lurdes
Não vales nada
Se tu sonhasses
Como me sinto
Já vejo a morte
Nunca te minto
Já vejo o inferno
Chamas diabos
Anjos estranhos
Cornos e rabos
Tigres sem listas
Bodes de tranças
Choros de corujas
Risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes
Que foi aquilo
Não é a chuva
No meu postigo
Ai Lurdes, Lurdes
Fica comigo
Não é o vento
A cirandar
Nem são as vozes
Que vêm do mar
Não é o pingo
De uma torneira
Põe-me a santinha
À cabeceira
Compõe-me a colcha
Fala ao prior
Pousa o Jesus
No cobertor
Chama o doutor
Passa a chamada
Ai Lurdes, Lurdes
Nem dás por nada
Faz-me tisanas
E pão de ló
Não te levantes
Que fico só
Aqui sozinho
A apodrecer
Ai Lurdes, Lurdes
Que vou morrer

Etiquetas: ,

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Só os mortos conhecem Mafra

SÓ OS MORTOS CONHECEM MAFRA

Ainda hoje me aborrece passar por Mafra, que não tem culpa nenhuma, Mafra e aqueles arredores todos por onde andei, de cadete, nos primeiros meses da desgraça que me levou, em paquete de luxo, para os tiros de África. Suponho que foi o inverno mais horrível da minha vida, janeiro, fevereiro e março ao frio e à chuva entre o convento gelado a que chamavam Escola Prática de Infantaria, a tapada na qual se dizia que o Presidente da República ia aos veados e as torturas militares até à foz do Lizandro. Eu compreendo que seja necessário treinar com dureza os alunos oficiais para a guerra mas custa-me entender a crueldade de alguns instrutores. Também compreendo que os ditos instrutores eram tão infelizes quanto nós mas custa-me entender a violência desnecessária, a humilhação estúpida, as condições de vida degradantes. Com uma estrela no ombro e L. Antunes cosido no uniforme passei uma fominha de cão: café com leite em pó, um pacote minúsculo de manteiga a dividir por oito. O alferes de pé, braços cruzados, ordenando
        - Rastejar até mim
   isto é até lhe tocarmos nas botas, uns por cima dos outros na lama das veredas. A falta de água que me fazia passar a semana inteira sem banho, o cheiro pestilencial das casernas, a brutalidade constante, nós sujos, desesperados, exaustos, o alferes a perguntar
     - A tropa é linda ?
     e a gente em coro, jurando-lhe pela mãezinha
     - É
     O alferes a perguntar
     A tropa é boa ?
     e a gente com vontade de esganá-lo
     - É
     o alferes a insistir
     - Mais alto
    e a gente mais alto
     - É
      O alferes
     - Angola
     e a gente em coro
     - É nossa
    num mugido de raiva, o major que nos estudava o aspecto na parada, passando um cartãozinho na bochecha a verificar a perfeição da barba. Se o cartão fazia
     - Trrrrr
     o major informava o capitão
     - Este cadete não tem fim de semana
      eu dentro de mim
     - Hei-de vingar-me do sacana nem que espere mil séculos
     quando o major um desgraçado igual à gente, um prisioneiro igual à gente, mal pago, mal vivido, com seis anos de África no bucho, ainda hoje me aborrece passar por Mafra, todas aquelas ladeiras, todas aquelas ruas, sargentos na secretaria a escreverem numa caligrafia dificil, corredores bolorentos, meia dúzia de urinóis se tanto para uma companhia inteira, o mijo a escorrer pelo chão, chamadas aos gritos a meio da noite
     - Dez minutos para formar na parada
     não, não dez
     - Cinco minutos para formar na parada
    o soldado português é tão bom como os melhores, Portugal uno e indivisivel do Minho a Timor, saltar o muro, saltar a vala, saltar os dias, se falhas nas provas fisícas vais para soldado, não esquecer a arrogância, o abuso constante, a maldade e não esqueci, não vou esquecer nada, Angola é nossa, rastejar, rastejar, chuva civil não molha militar, ainda hoje não passo por Mafra, dou uma volta ao lado, não encontrei um único cadete que fosse filho de uma pessoa importante da Ditadura, um deputado, um ministro, um banqueiro, esses não eram obrigados a rastejar, rastejar, a tocar as botas do alferes, a comer o lixo do refeitório, a minha cabeça, sempre
     - Porquê ?
     a minha cabeça, apenas
     - Porquê ?
    engraçado como sobrevivemos a tudo, resistimos a tudo e quase logo a seguir eu oficial também, pronto para o barquinho de África de galões nos ombros, novos em folha, a minha cabeça, sempre
     - Porquê ?
     a minha cabeça, apenas
     - Porquê ?
     insistindo
    - Em nome de quê, porquê ?
     e de novo janeiro e frio e chuva, a foz do Lizandro de madrugada, imprecisa, uma laranja, uma lata de conservas, os meus dedos com dificuldade em retirarem a casca, cadetes, em lugar de gaivotas, espalhados na praia, transidos, um solzinho pálido a desfocar-se, poisar a arma, o pano de tenda, o cantil, morder a casca, o sumo ácido, só os mortos conhecem Mafra, escutam-se os passos dos defuntos nas lajes do convento, o cadete L. Antunes a subir as escadas na direcção da camarata, aí vai ele, se entrasse lá agora encontrava-o, ordenava-lhe
     - Dez minutos para formar na parada
     não, não dez
    - Cinco minutos para formar na parada
    e ficava a vê-lo correr para a chuva, janeiro, fevereiro, março, o cabelinho rapado, os dedos vermelhos que nem com uma laranja acertam, o cadete L. Antunes
     - Porquê ?
     - O cadete L. Antunes apenas
     - Porquê ?
     a cara dele
     - Porquê ?
    e claro que não respondo, se respondesse tinha de dizer-lhe
     - Também não sei
     e um oficial, é evidente, não pode dar parte de fraco diante de um recruta de merda.

António Lobo Antunes - Terceiro Livro de Crónicas - Dom Quixote
  


Etiquetas: ,

quinta-feira, novembro 25, 2010

HOSPITAL MIGUEL BOMBARDA

Hoje, manhã cedo, encontrei o Rui Pedro. Não o reconheci mas ele perguntou-me como estava e recordou-me que andámos na primária, na mesma escola. Já passaram mais de 50 anos. Depois de algumas recordações - para mim completamente esquecidas - perguntei pela Leonor, a sua mulher. Disse-me, com ar triste, que tinha uma doença " chata " ( não pedi pormenores ) e que além disso, tinha vários momentos associados a uma depressão. Inclusivé, estivera, já há muitos anos, internada no Hospital Miguel Bombarda, por duas vezes. À segunda, iludindo a vigilância, fugira de lá.
Hoje era o dia dos anos dela, mas preferira ficar na cama e não falar com ninguém. Por alguma razão, nunca gostara do dia do seu aniversário. Despedi-me do Rui Pedro e dificilmente nos voltaremos a encontrar, já que tem a vida centrada no Norte de Portugal.


----


Hoje, 25 de Novembro, fui a uma consulta, não ao Miguel Bombarda mas a uma extensão deste hospital.
Leio sempre, quando espero por consultas. Ao abrir o livro, que não tinha marcador, deparei com o texto que transcrevo a seguir. E fiquei demasiado confuso e transtornado.
E desejo, de todo o coração, que nem a Leonor nem outros como ela, tenham que voltar alguma vez àquele " hospital ".
Boa sorte para ambos, Rui Pedro e Leonor.



HOSPITAL MIGUEL BOMBARDA

São quase onze horas da noite. A fixidez das lâmpadas lá fora, tão quietas quanto as árvores. Normalmente palpitam, sobem, descem, parecem mover-se. Alguns raros automóveis na auto-estrada ou lá o que é aquilo. E eu sentado a escrever. Não sei o quê. Escrevo. A caneta há-de encontrar o seu caminho.
Hoje almocei no hospital em que trabalhava e onde conheço cada vez menos pessoas. Sempre achei, desde o primeiro dia, era eu um internozito chegado de África, que em lugar de hospital me haviam colocado num chiqueiro de merda. Mas quem se rala ? São doentes e são pobres. Lá andam eles a penar, entupidos de medicamentos até à goela, de expressões vazias. Calmos, claro, mas no sentido em que os legumes são calmos. Tive um director para quem a calma era essencial:
punha na papeleta
    calmo, ordenado
    o que, para ele, era sinónimo de estar bem. O director, em contrapartida, que não era calmo nem ordenado, não tomava medicamento nenhum. Andava atrás das enfermeiras como um cachorro aos sobejos, punha a mão adiante da boca para me cochichar
 - Tope-me aquela
    empurrava-as contra a marquesa, na sala de pensos. Uma ocasião perguntei-lhe
    - Calmo e ordenado não será o contrário de estar vivo ?
    e ele, a engrossar à secretária
    - Olhe que eu instauro-lhe um processo disciplinar
    e instaurou. Que extraordinário verbo, instaurar. Instauro-lhe um processo disciplinar. Nomearam um inquiridor que me chamou ao gabinete da Administração. O inquiridor era o clínico geral do chiqueiro. Um único clínico geral para centenas de doentes. Chegava ao meio-dia. Saía às onze.  Durante os anos de internato instauraram-me
    ( santo verbo)
    três processos disciplinares por insubordinação. Não: dois por insubordinação, um terceiro por me apresentar ao serviço
    ( outra bela expressão, apresentar-me ao serviço )
    vestido com o uniforme dos doentes. Porque os doentes eram obrigados a um uniforme, o que me revoltava. E rapavam-lhes a cabeça. E eram vistos quando o rei faz anos. Mas andavam calmos e ordenados. Quase todos. Lembro-me de um rapaz que se regou de petróleo e se chegou um fósforo. De vários que se suicidaram. Do psicanalista que dava electrochoques em série. Do grupalista
    (grupalista: passei oito anos nessa léria e ainda estou para saber o que é)
    que na Urgência aplicava doses de injectáveis que me aterravam.
Segredava com doçura
    - E agora apanha um lorenin e fica confuso mas calmo.
   e de facto a vítima babava-se, resmungando incoerências. Pelo menos não maçava ninguém. A propósito de uniforme lembrei-me agora que há uma fotografia do poeta Ângelo de Lima com ele e de cabecinha rapada. Compôs uma porção de versos no hospital, alguns excelentes. Desenhava.
O meu pai recordava-se de ver os seus desenhos e os seus escritos a ganharem bolor numa espécie de cave. Não interessavam um corno: asneiras de um maluquinho qualquer. No segundo ano do internato ganhei o prémio da Sociedade de Neurologia e Psiquiatria com um trabalho sobre ele: devo ter sido o único concorrente. Na cerimónia da entrega do prémio o director, subitamente amável
    - É uma pena você ser tão impulsivo
    eu que não era impulsivo nem meia. Em vinte e sete meses de guerra uma pessoa aprende, que mais não seja, a dominar-se. Quem não se dominava morria. Quem se dominava morria menos. Eu só morri um bocado.
Não há uma ponta de exagero no que disse aqui. Fiz um livro inteiro sobre isto, chamado Conhecimento do Inferno, e o resultado foi um dos meus chefes vir de pistola ao hospital para me ferrar um tiro. Não estava calmo nem ordenado e não o internaram. Quando se cruzava comigo começava a correr. Nunca vi a pistola, eu que me lembrava bem desses instrumentos. Fartei-me de os montar e desmontar. De os olear. De lhes carregar nos gatilhos.
Onze horas da noite. Se calhar meia-noite. A fixidez das lâmpadas lá fora, tão quietas quanto as árvores. Normalmente palpitam, sobem, descem, parecem mover-se. Tenho vergonha de ter trabalhado no hospital. De ter sido médico ali. De me ter calado tantas vezes. Precisava de ganhar a vidinha, não é ? Todos precisamos de ganhar a vidinha não é ? Uma rapariga estrangulou-se com a fita do cabelo, e o assistente para mim
   - Isto fica entre nós.
    Lâmpadas tão quietas quanto as árvores. Eu sentado a escrever. Não sei o quê. Escrevo. A caneta há-de encontar o seu caminho. Encontrou: no bico do aparo vejo um rapaz a regar-se de petróleo, a chegar-se um fósforo. Mas isso, é evidente, fica aqui entre nós.

António Lobo Antunes - Terceiro Livro de Crónicas - Dom Quixote

Etiquetas: , ,