quarta-feira, agosto 19, 2009

Manuel Alegre / Manuel da Fonseca

De Portugal para Salvador da Baía

TROVA DO VENTO QUE PASSA
para Antonio Portugal


Pergunto ao vento que passa

notícias do meu país

e o vento cala a desgraça

o vento nada me diz.



Pergunto aos rios que levam

tanto sonho à flor das águas

e os rios não me sossegam

levam sonhos deixam mágoas.



Levam sonhos deixam mágoas

ai rios do meu país

minha pátria à flor das águas

para onde vais ? Ninguém diz.



Se o verde trevo desfolhas

pede notícias e diz

ao trevo de quatro folhas

que morro por meu país



Pergunto à gente que passa

por que vai de olhos no chão.

Silêncio - é tudo o que tem

quem vive na servidão.



Vi florir os verdes ramos

direitos e ao céu voltados.

E a quem gosta de ter amos

vi sempre os ombros curvados.



E o vento não me diz nada

ninguém diz nada de novo.

Vi minha pátria pregada

nos braços em cruz do povo.



Vi meu poema na margem

dos rios que vão pró mar

como quem ama a viagem

mas tem sempre que ficar.



Vi navios a partir

(Portugal à flor das águas)

vi minha trova florir

(verdes folhas verdes mágoas)



Há quem te queira ignorada

e fale pátria em teu nome

Eu vi-te crucificada

nos braços negros da fome.



E o vento não me diz nada

só o silêncio persiste

Vi minha pátria parada

à beira de um rio triste.



Ninguém diz nada de novo

se notícias vou pedindo

nas mãos vazias do povo

vi minha pátria florindo.



E a noite cresce por dentro

dos homens do meu país.

Peço notícias ao vento

e o vento nada me diz.



Mas há sempre uma candeia

dentro da própria desgraça

há sempre alguém que semeia

canções no vento que passa.



Mesmo na noite mais triste

em tempo de servidão

há sempre alguém que resiste

há sempre alguém que diz não.


Manuel Alegre - Praça da Canção
Publicações Dom Quixote



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CORO DOS EMPREGADOS DA CÂMARA

É tão vazia a nossa vida,
é tão inútil a nossa vida
que a gente veste de escuro
como se andasse de luto.
Ao menos se alguém morresse
e esse alguém fosse um de nós
e esse um de nós fosse eu...

...O sol andando lá fora,
fazendo lume nos vidros,
chegando carros ao largo
com gente que vem de fora
(quem será que vem de fora?)
e a gente pràqui fechados
na penumbra das paredes,
curvados pràs secretárias
fazendo letra bonita.
Fazendo letra bonita
e o vento andando lá fora
rumorejando nas árvores,
levando nuvens pelo céu,
trazendo um grito da rua
(quem seria que gritou?)
e a gente pràqui fechados
na penumbra das paredes,
curvados pràs secretárias
fazendo letra bonita,
enchendo impressos, impressos,
livros, livros, folhas soltas,
carimbando, pondo selos,
bocejando, bocejando,
bocejando.

Manuel da Fonseca - Poemas Completos - Portugália Editora

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3 Comentários:

Às quarta-feira, 19 agosto, 2009 , Blogger Paula Raposo disse...

Óptimas escolhas, Zé!! Lindos! Muitos beijos.

 
Às sábado, 22 agosto, 2009 , Blogger pedro macieira disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
Às sábado, 22 agosto, 2009 , Blogger pedro macieira disse...

Óptimo post.
Um abraço

 

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