sexta-feira, dezembro 17, 2010

Só os mortos conhecem Mafra

SÓ OS MORTOS CONHECEM MAFRA

Ainda hoje me aborrece passar por Mafra, que não tem culpa nenhuma, Mafra e aqueles arredores todos por onde andei, de cadete, nos primeiros meses da desgraça que me levou, em paquete de luxo, para os tiros de África. Suponho que foi o inverno mais horrível da minha vida, janeiro, fevereiro e março ao frio e à chuva entre o convento gelado a que chamavam Escola Prática de Infantaria, a tapada na qual se dizia que o Presidente da República ia aos veados e as torturas militares até à foz do Lizandro. Eu compreendo que seja necessário treinar com dureza os alunos oficiais para a guerra mas custa-me entender a crueldade de alguns instrutores. Também compreendo que os ditos instrutores eram tão infelizes quanto nós mas custa-me entender a violência desnecessária, a humilhação estúpida, as condições de vida degradantes. Com uma estrela no ombro e L. Antunes cosido no uniforme passei uma fominha de cão: café com leite em pó, um pacote minúsculo de manteiga a dividir por oito. O alferes de pé, braços cruzados, ordenando
        - Rastejar até mim
   isto é até lhe tocarmos nas botas, uns por cima dos outros na lama das veredas. A falta de água que me fazia passar a semana inteira sem banho, o cheiro pestilencial das casernas, a brutalidade constante, nós sujos, desesperados, exaustos, o alferes a perguntar
     - A tropa é linda ?
     e a gente em coro, jurando-lhe pela mãezinha
     - É
     O alferes a perguntar
     A tropa é boa ?
     e a gente com vontade de esganá-lo
     - É
     o alferes a insistir
     - Mais alto
    e a gente mais alto
     - É
      O alferes
     - Angola
     e a gente em coro
     - É nossa
    num mugido de raiva, o major que nos estudava o aspecto na parada, passando um cartãozinho na bochecha a verificar a perfeição da barba. Se o cartão fazia
     - Trrrrr
     o major informava o capitão
     - Este cadete não tem fim de semana
      eu dentro de mim
     - Hei-de vingar-me do sacana nem que espere mil séculos
     quando o major um desgraçado igual à gente, um prisioneiro igual à gente, mal pago, mal vivido, com seis anos de África no bucho, ainda hoje me aborrece passar por Mafra, todas aquelas ladeiras, todas aquelas ruas, sargentos na secretaria a escreverem numa caligrafia dificil, corredores bolorentos, meia dúzia de urinóis se tanto para uma companhia inteira, o mijo a escorrer pelo chão, chamadas aos gritos a meio da noite
     - Dez minutos para formar na parada
     não, não dez
     - Cinco minutos para formar na parada
    o soldado português é tão bom como os melhores, Portugal uno e indivisivel do Minho a Timor, saltar o muro, saltar a vala, saltar os dias, se falhas nas provas fisícas vais para soldado, não esquecer a arrogância, o abuso constante, a maldade e não esqueci, não vou esquecer nada, Angola é nossa, rastejar, rastejar, chuva civil não molha militar, ainda hoje não passo por Mafra, dou uma volta ao lado, não encontrei um único cadete que fosse filho de uma pessoa importante da Ditadura, um deputado, um ministro, um banqueiro, esses não eram obrigados a rastejar, rastejar, a tocar as botas do alferes, a comer o lixo do refeitório, a minha cabeça, sempre
     - Porquê ?
     a minha cabeça, apenas
     - Porquê ?
    engraçado como sobrevivemos a tudo, resistimos a tudo e quase logo a seguir eu oficial também, pronto para o barquinho de África de galões nos ombros, novos em folha, a minha cabeça, sempre
     - Porquê ?
     a minha cabeça, apenas
     - Porquê ?
     insistindo
    - Em nome de quê, porquê ?
     e de novo janeiro e frio e chuva, a foz do Lizandro de madrugada, imprecisa, uma laranja, uma lata de conservas, os meus dedos com dificuldade em retirarem a casca, cadetes, em lugar de gaivotas, espalhados na praia, transidos, um solzinho pálido a desfocar-se, poisar a arma, o pano de tenda, o cantil, morder a casca, o sumo ácido, só os mortos conhecem Mafra, escutam-se os passos dos defuntos nas lajes do convento, o cadete L. Antunes a subir as escadas na direcção da camarata, aí vai ele, se entrasse lá agora encontrava-o, ordenava-lhe
     - Dez minutos para formar na parada
     não, não dez
    - Cinco minutos para formar na parada
    e ficava a vê-lo correr para a chuva, janeiro, fevereiro, março, o cabelinho rapado, os dedos vermelhos que nem com uma laranja acertam, o cadete L. Antunes
     - Porquê ?
     - O cadete L. Antunes apenas
     - Porquê ?
     a cara dele
     - Porquê ?
    e claro que não respondo, se respondesse tinha de dizer-lhe
     - Também não sei
     e um oficial, é evidente, não pode dar parte de fraco diante de um recruta de merda.

António Lobo Antunes - Terceiro Livro de Crónicas - Dom Quixote
  


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5 Comentários:

Às domingo, 19 dezembro, 2010 , Blogger Licínia Quitério disse...

Esta crónica traduz uma visão felizmente quase ultrapassada de Mafra. A geração do Lobo Antunes viveu de facto aqui um inferno preparatório da guerra colonial. Aqui como em muitas outras terras: Tavira, Lamego, Santa Margarida, etc.etc.
Hoje Mafra, em grande parte devido ao Memorial do Saramago, é citada em muito mundo pelo seu monumento e visitada por isso mesmo.
Claro que amargas recordações persistem nos que, como ALA, aqui penaram. Felizmente a história avança, e essa visão de uma terra é redutora e exagerada. Se ALA não passa a Mafra será por certo mais pelo seu proverbial mau feitio do que pelo trauma de que, como bom psiquiatra, já poderia ter-se tratado. Mafra não é só o Convento e, felizmente cada vez menos, é o seu quartel. É uma terra linda, de gente boa e gente má, como todas.

Esta é a minha opinião, como pediste.

 
Às segunda-feira, 20 dezembro, 2010 , Blogger viajante disse...

Também acho que Mafra é uma terra linda e de gente boa. E Ericeira e o Lizandro. E gosto do trabalho do Presidente Ministro dos Santos (que não é da minha cor política). Devia estar em Sintra...

Gosto muito do Lobo Antunes e de tudo quanto escreve. Gosto das entrevistas (houve uma na RTP em tempos, fascinante)Gosto em em especial das Crónicas.

Não gosto do Saramago, com excepção do Memorial e aí entra Mafra

Agradeço a tua opinião e a frontalidade.

Um abraço e até quinta, com BRIGA.

 
Às terça-feira, 12 agosto, 2014 , Blogger Venancio Nhassengo disse...

EU sou apaixonado pela cronica so os mortos conhencem Mafra,nao me canso de ler

 
Às terça-feira, 15 dezembro, 2015 , Blogger Venancio Nhassengo disse...

Gostaria de ter o email do Lobo Antunes gostaria de trocar umas ideias com ele, que estiver apto em me ajudar pode mandar para o meu email venancionhassengo55@gmail.com

 
Às sábado, 19 dezembro, 2015 , Blogger Venancio Nhassengo disse...

E pra finalizar eu Venâncio Augusto Nhassengo, ter lido esta cronica me remeteu a ter recordações da minha vida e acrescer que vivi momentos quase similares ou paralelos que o meu guia lobo Antunes viveu, esta cronica foi a minha fonte de inspiração desde 2010 que tive a primeira experiencia com lobo Antunes que me da forças de triunfar e vingar-me dos sacanas desta vida nem que espere mil seculos.
Quem for a ler este meu comentário a vingança não é pelo lado da maldade mais sim, mostrar que um dia também estarei acima da tal Pessoa, por eu estar em baixo não significa que tarei em baixo eternamente que o destino nos da provações e não podemos espezinhar os outros, a cronica do lobo Antunes ensino-me em especial a saber compartilhar, ser humilde e não ter medo de encarar as piores fazes da vida ser lutador ate vencer.
Respeitosamente agradecer ao António lobo Antunes pela homenagem que ele prestou perante a minha pessoa.

 

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