669 - Dia da Mãe
e foto de arquivo pessoal
Lembra-se talvez, pois era muito nova, quando me levava quase todos os dias (ou todos?) ao Hospital de Santa Marta. Aquela maldita doença, a meningite (na altura, quase mortal) tinha aparecido muito cedo, não sei se em Sintra ou ainda no Alentejo. E a sua dedicação, durante longos cinco anos, foi total. O pai trabalhava, a mana ainda vinha longe, e a mãe lá entrava comigo na estação de Sintra. Lembra-se dos comboios? Julgo que eram pretos ou de um verde escuro
(Um dia, surpresos, aparece o revisor, o tio Luís, pois nós viajávamos em segunda classe e ele só fazia serviço em primeira)
Saindo de Campolide, lá entrava o comboio naquele longo (para mim) túnel que ía dar ao Rossio. Fuligem por todo o lado e grande incómodo para todos os passageiros. Em Lisboa, passagem obrigatória pela Praça da Figueira (ainda havia a praça). Depois Portas de Santo Antão (ou Rua Eugénio dos Santos) Rua de S. José até Santa Marta. E alí, o Hospital. Onde me deram alta uns anos depois.
(Ainda hoje pergunto, como foi possível "safar-me", naquela altura. Fleming inventara a penicilia e havia algo a que chamavam Estretomicina(?). Se fiquei por aqui, por algo foi, mas ainda não descobri bem a razão...)
A mãe chegou a ouvir falar no TGV (sigla francesa que significa Trains à Grande Vitesse)? Queriam uma coisa dessas aqui para nós, mas devido a uma crise tramada, foi tudo anulado. Mas no Domingo passado, ao ir a Lisboa num dos comboios actuais, o que era aquilo senão um TGV? Comparado com os "nossos" comboios de então, não queira imaginar, mãe, o conforto, a velocidade, as novas estações renovadas,
(embora sinta saudades das antigas estações da CP)
e em Lisboa, debaixo de chão, imagine, havia algo parecido. Cheguei num pulo à Feira do Livro.
Não consegui fazer o percurso desde a Praça da Figueira até ao Hospital, como desejava, mas a idade já não permite. Mas não esqueci o percurso.
Passei anos e anos naquela linha de Sintra. O Pai havia de lembrar-se bem pois também fazia aquele trajecto diáriamente. Mas essa história conto-a noutro dia.
Hoje só queria estar mesmo ao pé de si. Afagar-lhe os cabelos brancos, olhar os seus lindos olhos, mesmo sabendo que já me confundia. A sério, mãe, goste ou não goste do que lhe vou dizer, queria estar aí consigo, abraçá-la. E não aqui. Não hoje.
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