domingo, abril 01, 2012

662 - 1 de Abril

Dia de mentiras (ou de partidas) - 1º de Abril

E assim, o que se segue, tanto pode ser verdade como não. Fica ao critério de cada um.


No início dos anos 70, o Rui foi meu camarada de armas (felizmente nunca as utilizei) num quartel de Lisboa. Quando nos despedimos (quase trinta e três meses juntos) o Rui fez-me um pedido muito estranho. Entregou-me uma caixa com cartas e fotografias. Disse-me que lhe traziam recordações tristes. Pediu-me para as guardar ou deitar fora, mas sabedor do gosto que eu tinha em guardar coisas (caixas de fósforos, selos, postais, etc) calculou que eu arrumaria aquilo num canto qualquer.
A caixa foi guardada num sótão. Até um dia. Depois, dias e dias a ler aquelas missivas todas e a tentar perceber as razões de um e de outro. Havia um senão: só havia cartas de um lado.
A última carta que o Rui recebeu (e que o deve ter deixado de rastos) era esta:

Algures em África, 20/07/70
Rui Manuel
Recebi hoje a tua carta. Como tens passado? E os teus ?
Olha, tenho a dizer-te que vou casar em breve e por isso esta correspondência terá de acabar, não ficas zangado pois não?
Se quiseres escrever mais uma vez, escreve para a Caixa Postal XPTO-capital da província.
A tua irmã Tânia como está? E essa tropa?
Com amizade
Íris Maria

Não sei se o Rui escreveu ou não para a Caixa Postal. Nunca mais soube nada dele.

Passados todos estes anos, aparece-me uma carta, misteriosa para mim, e dirigida ao Rui.

Algures em África, 1 de Abril de 2012

Olá Rui Manuel
Possivelmente nem te lembras de mim. Já lá vão 40 e tal anos... A última vez que te escrevi, Julho de 1970 comuniquei-te o meu próximo casamento. Que se realizou, na Igreja da Sagrada Família, naquela capital de Província Ultramarina (a designação daquele tempo) exactamente um mês depois. 20 de Agosto de 1970.
Nunca te esqueci, Rui Manuel. Como podia isso suceder depois de três anos de cartas e cartas, enormes, escritas a altas horas da noite na residência de estudantes onde eu morava naqueles tempos. (a minha colega de quarto, inglesa, dormia profundamente...) Cartas de amor também, que eu sabia existir entre nós (Pafuncio e Ulisses, os nossos "filhos", têm saudades tuas)
Mas a vida, ou o destino, ou o que quiseres, tem outros planos. Teve outros planos. Regressei daquele país estrangeiro onde estudava, voltei para casa e aqui conheci o que viria a ser o meu marido.

(Tu, tão longe, como poderíamos "funcionar"? Hoje talvez fosse diferente...)

A profissão do António Gustavo, Engenheiro Agrónomo, fez com que fixasse a vida aqui. E aqui ficámos. Em Outubro de 1975, anos de guerra e bem feia, ainda pensámos ir para Portugal. Afinal ambos lá tínhamos nascido. Nunca o fizemos. Apenas registámos o casamento em Lisboa e temos dupla nacionalidade.
Temos três filhas, duas casadas, quatro netos. E vivemos bem. Felizes.

(Será a Felicidade um Dom Supremo a alcançar? Discutimos isso, parece-me)

Os meus irmãos e a minha irmã seguiram vidas diferentes. Não vou falar neles. Estão bem.
Gostava de saber se os teus pais (Mário e Ermelinda, creio eu) ainda estão vivos?
E gostava de saber de ti. Acredita que sim. Apesar das circunstâncias, ainda tens um lugar muito especial no meu coração.

(Um dia tive um sonho estranho. Ano de 2026, mês de Maio, oitenta anos, estou a assistir ao casamento da minha neta Clara. O noivo, de nome Jorge T., nascido em Portugal em 2006, teve como padrinho o avô Rui Manuel. Como gostei daquele casamento, embora sonhado.)

Não há Caixa Postal para enviar esta carta. Fica aqui, neste espaço. Será que alguma vez irás ler isto?

Com amizade
Íris Maria


Por mais que tente, pesquise, peça ajuda, não consigo encontrar o Rui. Gostava de lhe comunicar o desejo da Íris.

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sexta-feira, abril 01, 2011

530 - PRIMEIRO DE ABRIL

De Portugal:
S.exa, o Senhor Presidente da República decidiu assumir o seu papel de mediador e garante da estabilidade e, em vez de convocar eleições antecipadas (custo elevado e que só iria confundir o xadrez político) vai obrigar os principais partidos a entenderem-se e tentarem salvar o que resta deste pobre país.

José Sócrates, num acto de lucidez, abandona o partido, a vida política e vai, durante largos anos para Londres (talvez acabar o curso de Engenharia...).

Pedro Passos Coelho vai deixar de pensar na sua ascenção repentina a Primeiro Ministro e vai dedicar-se, de verdade, a tentar resolver os problemas de Portugal.

Paulo Portas vai insistir que de submarinos apenas sabe o que aprendeu em criança, quando brincava no tanque lá de casa.

Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã vão finalmente perceber que as guerras partidárias não levam a lado nenhum. E ambos vão empenhar-se, sériamente, em estudar alternativas, dentro das limitações que nos são impostas.

A população jovem está a aumentar graças a bastantes nascimentos. Portugal vai deixar de ser um país de velhos e as novas gerações vão garantir a sustentabilidade dos sistemas de segurança.

O caso Casa Pia vai finalmente colocar a «nu» os verdadeiros culpados daquela vergonha. Ministros, deputados e altos cargos de Empresas vão finalmente sentar-se no banco dos réus.

Os presidentes de Câmaras, suspeitos de grandes falcatruas, reuniram-se em plenário e decidiram, com coragem, abandonar os seus cargos. Felgueiras, Avelino, Isaltino e outros vão finalmente cumprir penas efectivas.

A Assembleia da República, depois de acalorada discussão, vai reduzir o número de deputados para 75. Os mesmos só terão direito a reforma, na parte proporcional ao tempo de serviço e não por inteiro como sucedia antes.

O Sr. Ministro das Finanças, ainda em funções, decretou que todos os governantes, deputados, administradores e chefes de serviço, se desloquem em transportes públicos e utilizem a classe económica quando, em casos de absoluta necessidade, tenham que se deslocar de avião ao estrangeiro. E ficarão alojados em hotéis «low cost». Para deslocações em que seja necessária a utilização de viatura esta será de modelo económico e, de preferência, pouco poluente.

No BPN vão entrar milhões de euros saídos de lá indevidamente (aliviando o Estado e a bolsa do Zé-Povinho). Oliveira e Costa e sua esposa (com a anuência de outros implicados) decidiram devolver tudo aquilo que não lhes pertence, a troco de um «exílio dourado» na Venezuela.

Vão ser extintas a PSP, GNR, PJ, e todas as outras polícias. Vai ser criada uma única Polícia Nacional que terá departamentos específicos para cada caso. E apenas um Comandante Nacional.

Hoje não haverá greves de transportes. Os sindicatos entenderam, finalmente, que apenas castigavam quem precisa de trabalhar - aqueles que ainda têm trabalho - e não o Governo ou as Administrações das Empresas.

Em conferências de Imprensa (a realizar quinzenalmente), com direito a todas as perguntas, serão dados todos os esclarecimentos sobre o estado da Nação. Todos se vão abster de, diáriamente, utilizarem a comunicação social para seu proveito próprio ou propaganda partidária.



O Sol nasceu às 04,00 horas devido a uma "anormal espertina". E brilha com intensidade.
E hoje nasceu para TODOS e não só para alguns.

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