662 - 1 de Abril
Nunca te esqueci, Rui Manuel. Como podia isso suceder depois de três anos de cartas e cartas, enormes, escritas a altas horas da noite na residência de estudantes onde eu morava naqueles tempos. (a minha colega de quarto, inglesa, dormia profundamente...) Cartas de amor também, que eu sabia existir entre nós (Pafuncio e Ulisses, os nossos "filhos", têm saudades tuas)
Mas a vida, ou o destino, ou o que quiseres, tem outros planos. Teve outros planos. Regressei daquele país estrangeiro onde estudava, voltei para casa e aqui conheci o que viria a ser o meu marido.
(Tu, tão longe, como poderíamos "funcionar"? Hoje talvez fosse diferente...)
A profissão do António Gustavo, Engenheiro Agrónomo, fez com que fixasse a vida aqui. E aqui ficámos. Em Outubro de 1975, anos de guerra e bem feia, ainda pensámos ir para Portugal. Afinal ambos lá tínhamos nascido. Nunca o fizemos. Apenas registámos o casamento em Lisboa e temos dupla nacionalidade.
Temos três filhas, duas casadas, quatro netos. E vivemos bem. Felizes.
(Será a Felicidade um Dom Supremo a alcançar? Discutimos isso, parece-me)
Os meus irmãos e a minha irmã seguiram vidas diferentes. Não vou falar neles. Estão bem.
Gostava de saber se os teus pais (Mário e Ermelinda, creio eu) ainda estão vivos?
E gostava de saber de ti. Acredita que sim. Apesar das circunstâncias, ainda tens um lugar muito especial no meu coração.
(Um dia tive um sonho estranho. Ano de 2026, mês de Maio, oitenta anos, estou a assistir ao casamento da minha neta Clara. O noivo, de nome Jorge T., nascido em Portugal em 2006, teve como padrinho o avô Rui Manuel. Como gostei daquele casamento, embora sonhado.)
Não há Caixa Postal para enviar esta carta. Fica aqui, neste espaço. Será que alguma vez irás ler isto?
Com amizade
Íris Maria
Por mais que tente, pesquise, peça ajuda, não consigo encontrar o Rui. Gostava de lhe comunicar o desejo da Íris.
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