segunda-feira, março 07, 2011

505 - Loanda / Luanda

Um conselho:Elvídio. Com este conselho, a RTP, ou a TVI ou a SIC, chamava-me para mais pormenores (eu dava-os:Elvídio Serrão da Veiga de Oliveira) e passava-me o chorudo cheque. Infelizmente, as coisas sendo o que são, nínguém vai querer o meu conselho. Encolho os ombros e conto-vos tudo, aqui e de graça.
Como o nome indica, Elvídio, trata-se de um brasileiro, angolano ou cabo-verdiano, enfim, um lusófano do Atlântico Sul. Este Elvídio é do tempo da caparandanda, como por lá se diz de antigamente, nasceu em 1926 no largo da Mutamba, em Luanda. É onde vive e o cumprimentam assim:«Como está, mais velho?» É sinal de receio que ele morra como se uma biblioteca ardesse. Elvídio escreveu em 2009, mas só agora me chegou às mãos, o livro Turista Kalu em Loanda (editora portuguesa Prefácio em Lisboa). Tudo está no título: «turista» por deambular, «Kalu» no diminuitivo de caluanda, como se chamam os naturais da cidade que era «Loanda» em nome antigo. Elvídio passeia-se pela Luanda da sua infância e conta-a. Não é um romance, ele não se demora muito em explicar como cai de pára-quedas na Luanda da década de 1920, Turista Kalu em Loanda é só uma recordação.
Luanda é antiga mas tem histórias e pedras que os ventos recentes da história quase arrasaram. Daí a importância do velho mulato Elvídio, que passou a vida como agrimensor por Angola fora, e que, aos 80 e tais, recorda a cidade da sua infância (como diz: «portanto, três quartos de século atrás») com uma precisão que já não consegue para a última refeição («portanto, três quartos de hora atrás»).
A minha ideia era pôr uma câmara atrás de Elvídio. de costas para Luanda e voltado para a baía, a dizer (com a câmara filmando):«Como vêem, ainda não há porto (nós veríamos que havia, mas não interessa, víamos as palavras de Elvídio), nesta ponte sobre batelões, chegavam os escaleres que recebiam os passageiros dos paquetes de Portugal ou dos barcos de cabotagem costeira por Angola...» E por aí fora. Ele levava-nos pela ilha que ainda era mesmo ilha, sem ponte nem estrada, só acessível pelos dongos, canoas feitas de tronco escavado. Ele levava-nos pela Fortaleza de S. Miguel dentro, ainda habitada por homens vestidos de ganga e com barrete cunhado por três letras brancas: «DDA»-Depósito de Degredados de Angola com condenados vindos de Portugal cumprir pena.
Levava-nos ao velho cemitério do Alto das Cruzes, com os seus muros brancos em meia-lua, e dizia:«Vamos aos dois cemitérios.» Dois? Confirmava, e apontava para o outro lado da rua o edifício da embaixada americana, com caboucos cavados sobre o cemitério dos protestantes, que outrora recebeu o corpo de um capitão de um baleeiro de New Bedford, mergulhado em barrica de aguardente. Elvídio percorria as ruas por onde no seu tempo havia carris do comboio de Maianga, muito antes da cidade ter maximbombos, como por lá viriam a chamar aos autocarros, com a ilusão de inventar uma palavra nova, quando afinal só herdou as machine-pumps que subiam e desciam a lisboeta Calçada da Estrela.
Elvídio contará uma história apontando aquele pedestal que é só pedestal e foi estátua da vitória sobre os alemães da Namíbia, na Primeira Guerra Mundial, uma Vitória coroando combatentes negros e brancos, a «Maria da Fonte» do tempo colonial. Esse pedestal terá em breve uma rainha Ginga, e ela será o pretexto para as palavras do nosso guia. Em 1657, o governador Sousa Chichorro recebeu a rainha Ginga. Mas não foi sábio como Salomão com a rainha de Sabá, não foi delicado. A rainha Ginga teve de chamar uma escrava sua, obrigou-a a pôr-se de quatro e sentou-se nela- como gravura célebre recorda. «Ah, se o governador a cortejasse e lhe fizesse um filho como Salomão à Rainha de Sabá, a nossa história sería diferente!», haveria de lamentar-se o velho e sábio Elvídio. Era isso que eu tería gravado.

Ferreira Fernandes. Crónica em Notícias Magazine, 6 de Março de 2011.

E hoje, 7 de Março de 2011, de que lado estará Elvídio, na prevista manifestação em Luanda contra o governo de Angola? Do lado dos mais justos, decerto.

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