sábado, fevereiro 26, 2011

Memórias...

Foto de Luis Pereira, publicada no Blog " A Saloia "
Foto de ontem


Olá Pai.
Neste momento em que já não está connosco (está, eu sei, mas noutra dimensão, a olhar por nós) não consigo tratá-lo por tu. Como agora se usa, frequentemente. Sempre houve esse respeito (distancionamento?) entre nós.
Pai, ontem fomos fazer uma visita de despedida à Quinta. Nós, os seus filhos. A propósito de um livro que o professor Daniel escreveu. Havia uma tremenda necessidade de rever sítios, avivar memórias, fechar também uma porta (a porta da garagem e não só...).
Não ía conhecer a quinta, Pai. O jardim de cima ao abandono, lixo, folhas caídas à volta da palmeira. A casa vazia, lá em baixo. A rua grande que dá acesso à estufa. Aquela maldita estufa onde o seu pai, e meu avô Gabriel, se pendurou. Não vi um gancho, se calhar foi retirado, só vi uma travessa de madeira e acho que foi ali que aconteceu. O Pai sabe...
(Contaram-me do grito lancinante que o Pai deu, ao abrir a porta, grito ouvido por sua irmã, lá ao longe, na " Ilha das Cobras ").
O terreno do jogo, Pai, está diferente. Vi o muro por onde às vezes a bola saltava. Jogávamos lá, eu pequeno, com o professor Daniel e o irmão, amigos de quem todos gostávamos. O Pai foi, penso eu, o melhor guarda-redes do Sport União Sintrense.
(Lembro agora a sua zanga, era eu garoto, quando não quis acompanhá-lo a Alverca, aonde ía jogar).
O tanque da cisterna está vazio (lá em cima tentei puxar a argola, levantar a tampa, impossível). Das framboezas, apenas as estacas e os arames que as sustinham. Desapareceu a grande ameixoeira que eu via, vergada pelo peso, carregadinha de frutos. Desapareceu tanta coisa, Pai.
Não ía gostar de ver, de certeza. A quinta da raposa (houve mesmo raposas, algum dia?) alí ao lado, também abandonada.

Mais tarde, ao fechar, de vez, a porta da garagem (cuja chave, já devolvi) sentímos que se fechou também um ciclo.
(Como todos gostávamos daquela quinta, tão bem cuidada pelo pai e pelo avô).

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8 Comentários:

Às sábado, 26 fevereiro, 2011 , Anonymous Anónimo disse...

Triste, mas, muito bonito o seu texto.
As casas e os jardins também envelhecem como as pessoas e também morrem.
Tudo tem o seu tempo ...
emília reis

 
Às sábado, 26 fevereiro, 2011 , Blogger Raquel V. disse...

Que pena... pela descrição devia ser tudo muito bonito.

(eu também não tratava os meus pais por tu.)

 
Às sábado, 26 fevereiro, 2011 , Blogger pedro macieira disse...

Há sempre locais que nos transportam ao passado e activam as nossas memórias, e o texto como diz a Emilia é "triste, mas muito bonito".
Um abraço

 
Às sábado, 26 fevereiro, 2011 , Blogger viajante disse...

As pessoas morrem, é certo.
Mas as casas, os locais, podem (e devem) ser "ressuscitados". Sob pena de perdermos a nossa memória e identidade.

 
Às domingo, 27 fevereiro, 2011 , Anonymous Miguel disse...

Quem habitava nos andares de cima do prédio e via dessa perspectiva a quinta, apreciava o cuidado que o Necas com a quinta que, não sendo dele, tratava como se fosse. Só temos de dar contas enquanto as coisas estão à nossa responsabilidade, não quando passam para as mãos de outros (ou para as mãos de ninguém). O Avô Manel era daqueles que vestia a camisola e honrava a camisola que trazia vestida.

 
Às segunda-feira, 28 fevereiro, 2011 , Anonymous Anónimo disse...

Belíssima memória de gente que cumpria e era íntegra.
Um tempo de guardar e descrever aos novos, Zé!
Abç da bettips

 
Às sábado, 05 março, 2011 , Blogger M. disse...

Já aqui tinha vindo ler este belíssimo texto mas só hoje deixo pegadas. Gostei mesmo muito.

 
Às sábado, 05 março, 2011 , Blogger viajante disse...

Obrigado M.
Como escreveu o Miguel - seu neto -o Avô Manuel honrava a camisola. E não só.

 

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