domingo, dezembro 18, 2011

623 - O Voo...

Quando entrou naquele avião, Abdul sabia o que o esperava. Tinha recebido instruções muito precisas (e muito repetidas) sobre a sua missão. Não ia sózinho mas o papel principal era dele. Os seus companheiros apenas iriam cumprir ordens suas. O voo nº tal (e que importa aqui?) sairía de Newark para S.Francisco. Uma viagem normalissima. Só que naquela manhã estava destinada a ser diferente. Aquele avião fazia parte de um plano. Destruir um sistema.
(A dada altura, soube-se, dois aviões tinham causado uma catástrofe em New York...)


Abdul, como previsto, sentou-se num lugar junto ao corredor. Toda a liberdade para se deslocar quando chegasse a hora. Banco de três lugares. O do meio ia vazio. À janela, uma jovem. Muito bela. Vestido um pouco curto (demasiado ousado para as convicções de Abdul) computador no colo, ía, por vezes, olhando a janela, outras vezes mirando-o, de soslaio. Talvez admirada pelo seu aspecto um pouco diferente (afinal, era árabe, embora houvesse tantos naquele país).
Houve, nas várias vezes em que os olhares se cruzaram, vários clics.

Sarah, a jovem da janela, ia visitar seu pai. Veterano da Guerra do Vietnam, estava prevista uma homenagem, em S. Francisco, a antigos combatentes. Estava um pouco nervosa, pois embora desejasse, e muito, participar na homenagem, já não se relacionava com o pai há muito tempo. Mas pensou que lá chegando tudo se resolveria.
E o jovem que viajava perto de si? Pareceu-lhe também nervoso e percebeu que repetidamente orava baixinho numa língua estranha.
Sarah levantou-se e foi aos lavabos. Teve que lhe pedir licença, ele olhou-a, curioso, e deixou espaço suficiente para que nem se tocassem. Quando Abdul a viu percorrer o corredor sentiu uma sensação muito estranha. Naquela altura esqueceu tudo o que o trazia alí, esqueceu os seus companheiros (já lhe tinham feito alguns sinais, esperando as ordens que ele transmitiria).
Abdul pressentiu que, naquele preciso momento, algo muito importante tinha mudado na sua vida...
Sarah voltou e ao passar de novo por si, sorriu-lhe. O sorriso mais lindo que Abdul já alguma vez vira.

(Havia agitação nos restantes passageiros. Muitos já sabíam dos atentados de New York, naquela manhã. E suspeitavam, com um terror estampado em todos os rostos, que o destino daquele voo estava ligado aos outros acontecimentos)

Abdul, crente de Alah e com um juramento feito, tomou finalmente a sua decisão. Com uma coragem muito superior à necessária para fazer colidir um avião com o Capitólio (era esse o plano) mudou para o lugar do meio, agarrou na mão de Sarah e só conseguiu dizer:
A minha escolha és tu!


A partir do filme Voo 93...

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3 Comentários:

Às domingo, 18 dezembro, 2011 , Blogger Lucia Luz disse...

Que belo texto meu amigo!!!
Tão bom se as escolhas fossem sempre assim...
Um abraço

Lucia

 
Às quinta-feira, 22 dezembro, 2011 , Blogger Justine disse...

Uma belíssima versão dos acontecimentos, Viajante!
Não há dúvida que o amor redime...
Abraço

 
Às sexta-feira, 23 dezembro, 2011 , Blogger M. disse...

Gostei muito da história.
E fiquei satisfeita por ver que o computador já está do teu lado.

 

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