segunda-feira, abril 04, 2011

533 - CRÓNICAS DO BRASIL

(Para S. Salvador da Bahia)

No enterro do sushiman
No enterro do sushiman ele era o único não-japonês. Explicou que estava alí porque devia sua sanidade, talvez sua vida, ao sushiman. Almoçava no mesmo restaurante japonês todos os dias. Sentava-se no balcão e despejava seus problemas para o sushiman, que apenas sorria, sacudia a cabeça e dizia sempre a mesma frase. Ele não sabia o que a frase significava. Sabia, pelo modo como o sushiman a dizia, que era uma frase sábia. E sentia-se melhor, ouvindo a frase. Alguém o compreendia. Alguém o consolava. Como era a frase? Ele a repetiu, da melhor maneira possivel. Então disseram que a frase significava « Eu não falo português».
- Sei lá - disse ele. - Mas ajudou, viu?


Conselho
Rogério bufava.
- E ainda tem gente que gosta de Verão...
Marina nem estava.
- Eu adoro.
- Olha aí, fico todo suado. A pele oleosa. Não adianta banho, não adianta nada. Fico com brotoeja, assadura, até cheiro mal.
- Rogério, meu querido. Vou te dizer uma coisa.
- O quê?
- O problema não é o Verão. O problema é você.
- Ah, é ? Aposto que o Alberico não suava.
Marina só pôde fazer cara de sentida e dizer «Puxa, como você é, Rogério». Sabia que nunca deveria ter contado o que o Alberico gostava de fazer no banheiro. «Dezassete anos e você não esquece» O sorriso na cara suada do Rogério era de puro gozo.
Marina só estava esperando a Rosilene ficar maiorzinha para lhe dar o único conselho que uma mãe deve dar à filha:
- Nunca conte nada do seu primeiro marido.

Luís Fernando Verissimo - Do lado de lá - Jornal Expresso.

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