sexta-feira, dezembro 28, 2007

Pós-Natal

O tom


Apavorada com a perspectiva de envelhecer e o marido trocá-la por uma mais moça, fez plástica atrás de plástica. Resultado: tem cinquenta anos mas um corpo de vinte e um rosto de trinta, se você não olhar muito de perto. Alisou as rugas, tirou daqui, enxertou ali, levantou acolá - o acolá é sempre o primeiro a cair - , e conseguiu não envelhecer. Mas no outro dia constou que o marido a trocara por outra.

Estava inconsolável, só não podia chorar para não desmanchar a maquilhagem. Tentaram consolá-la assim mesmo, chamando o marido de tudo. Inclusive de cego, pois quem procuraria outra mulher tendo uma como ela - corpo de vinte, rosto de trinta - em casa ? Os homens não tinham jeito. Em muitos deles, amadurecer era uma forma de voltar à adolescência. Iam em busca dos hormónios perdidos e só encontravam o ridículo.
- Não me façam chorar, não me façam chorar - pedia ela.

As outras mulheres começaram a desenvolver teses sobre o que leva os homens mais velhos a procurar mulheres mais moças. Pânico sexual, antes de mais nada. Descontadas, claro, as falhas naturais do carácter masculino, que também se acentuam com a idade. Mas ela que esperasse. Cedo ou tarde, ele se cansaria da mulher mais moça, ou ela se cansaria dele, e...
- A outra não é mais moça - interrompeu ela. - É mais velha do que eu!

Abriu-se uma clareira de espanto. O quê? Mais velha?! E ela contou que a outra nunca fizera plástica, que a outra nem pintava os cabelos. Era uma senhora grisalha, matronal, exactamente do tipo que ele esperara em vão que ela ficasse, segundo ele mesmo dissera. Sim, porque ela fora pedir satisfação, disposta, inclusive, a bater na outra. Não só não batera como acabara ouvindo conselhos da outra, num tom maternal, sobre como envelhecer com naturalidade. O que mais doera fora o tom maternal.

Luís Fernando Veríssimo, " Do lado de lá " - Jornal Expresso - Suplemento Actual

5 Comentários:

Às sexta-feira, 28 dezembro, 2007 , Blogger Dulce disse...

Aceitar o envelhecimento é para alguns bastante difícil, mas afinal cada uma das nossas rugas conta uma história ... e é de experiência de vida que falam.
Um abraço

 
Às sábado, 29 dezembro, 2007 , Blogger FERNANDA & POEMAS disse...

Olá Amigo, lindo texto.
Adorei o tema. Espero que tenha muitas visitas porque é lindíssimo e acontece muito.
Deixo-te uma prendinha no; FOTOS-FERNANDA.
Beijinhos,
Fernandinha

 
Às domingo, 30 dezembro, 2007 , Anonymous Anónimo disse...

Adorei este texto, já o tinha lido. Posso falar do asunto pq acabei de fazer 60 e sei o que se sente, principalmente qd a cabeça não acompanha o corpo... Embora tenha espírito de 40 e muitos, as mudanças são difíceis de encarar ... Deixamos de ser nós... Que interessa ter 60 e parecer 30 qd TODOS vêem que não corresponde à realidade? Aceitemos a idade e pensemos em tudo o que ela nos dá de bom e esqueçamos (pelo menos tentar) a parte má...
Também temos o nosso encanto e principalmente, a maturidade, experiência, vivência... em tudo há uma parte boa e outra menos boa.
VIVA a VIDA e tentemos ser felizes!
mj

 
Às segunda-feira, 31 dezembro, 2007 , Blogger bettips disse...

Obrigada pela companhia este ano passado. O texto é muito actual...
Deixo-te um Grande Abraço Amigo.

 
Às segunda-feira, 31 dezembro, 2007 , Blogger luis manuel disse...

Um abraço, caro JOsé.
E ainda alegre com o Santo Natal, recebe o ano de 2008 com forte esperança.
Acreditando sempre.

Bom Ano Novo

 

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